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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

À grande e à... chinesa!

Muito tenho eu escrito sobre Pequim nestes meus textos, o nosso quotidiano, aventuras e desventuras mas parece-me que muitos de vocês não conhecem verdadeiramente a cidade…geograficamente falando. Assim, para os meus amigos geógrafos e todos os outros curiosos que seguem este blogue, aqui ficam alguns dados sobre uma das cidades mais populosas do mundo e que parece querer bater recordes mundiais em várias áreas. 
Pequim é uma cidade gigantesca em muitos aspetos: na dimensão espacial que ocupa, no número de habitantes, no número de linhas de metro e quilómetros que este percorre, no número de monumentos Património da Humanidade, entre outros… mas já lá vamos a cada um deles.

Para começar convém explicar o significado da palavra. Pequim para os portugueses, Beijing para os ingleses, 北京 Běijīng para os chineses. 北 ou Běi significa “norte” e 京 ou jīng significa “capital”. Sendo assim, é literalmente a “capital do norte”, capital da República Popular da China, segunda maior cidade do país (a seguir a Xangai) e ainda centro político, educacional e cultural da China. Não admira portanto que nesta cidade se concentre boa parte dos estrangeiros residentes no país, espalhados por empresas, escolas, embaixadas, negócios próprios e estudos académicos. 

O município de Pequim compreende uma área de cerca de 17 000 km², quase 20 milhões de habitantes e 16 subdivisões administrativas. Uma rápida pesquisa no Google sobre Lisboa e ficam logo a perceber a loucura que é esta cidade comparada com a nossa “pequenina” capital. Qualquer mapa de Pequim mostra a cidade dividida em 5 anéis. O centro compreende a Praça Tiananmen e a Cidade Proibida e está rodeado pelo primeiro anel que é mais de forma retangular do que circular. Os restantes anéis expandem-se pela cidade bem como as principais autoestradas e linhas de metro. O metro é um verdadeiro emaranhado de linhas, estações, entradas e saídas. Neste momento estão em funcionamento 19 linhas, o equivalente a cerca de 600 quilómetros, o que o torna o maior do mundo. Nas estações mais centrais podemos encontrar até quatro saídas diferentes (identificadas com as letras A, B, C e D) e errar na saída pode significar andar alguns quilómetros para se encontrar o que se quer. Também o aeroporto (PEK) é enorme e tem sido, de há uns anos a esta parte, considerado o segundo mais movimentado do mundo. 
Ainda no que diz respeito aos transportes, Pequim é mundialmente famosa pela quantidade descomunal de bicicletas que circulam nas suas ruas diariamente. Há quem diga que são 9 milhões mas pessoalmente acho o número um bocadinho exagerado. De qualquer forma, só esta questão das bicicletas “dá pano para mangas” e um destes dias escrevo sobre isto.

Quando se fala de Pequim ou da China em geral há um monumento que nos vem logo ao pensamento: a Grande Muralha. A “Chángchéng”, como é conhecida pelos chineses, é o mais longo muro do mundo (com quase  21200 km) e fica a cerca de uma hora de carro a partir de nossa casa…num dia bom, sem muito trânsito! A Grande Muralha está para Pequim como a Torre Eiffel está para Paris, o Big Ben para Londres ou a Torre dos Clérigos para o Porto, mas em Pequim há muitos mais monumentos (muitos deles Património da Humanidade) para visitar e são (quase) todos tão gigantescos que dificilmente se consegue conhecer todos numa simples viagem turística de uma ou até duas semanas. Entre os monumentos de Pequim que integram a lista da Unesco estão: A Cidade Proibida (considerado o maior palácio do mundo com 800 edifícios), o Templo do Céu, o Palácio de Verão, os Túmulos Imperiais das Dinastias Ming e Qing, Zhoukoudian (aldeia perto de Pequim onde foram encontrados vestígios do Homem de Pequim), o Grande Canal e, a já mencionada, Grande Muralha. Há, portanto, muito que visitar e muitos outros que, não fazendo parte da dita lista, valem a pena uma visita. É o caso da Praça Tiananmen que é considerada a maior praça do mundo. Lá está…mais um recorde! 

E, finalmente, o pior prémio…de cidade mais poluída. Na verdade, apesar dos valores andarem sempre muito altos (se comparados com Portugal por exemplo), há também dias muito bons em Pequim e, dizem os especialistas, muito tem melhorado nos últimos anos. Na semana passada tivemos valores acima dos 600, neste momento estamos com 214 (no Porto estão 18!!), mas, na verdade, a cidade não ganha este prémio pois há outras (maioritariamente na Índia) que estão bem pior. 

Basicamente aqui é tudo em grande. Dos monumentos aos centros comerciais, do metro ao aeroporto…é caso para dizer: à grande e à chinesa! 

mapa do município de Pequim

mapa parcial do metro de Pequim

Numa das visitas à Grande Muralha

Palácio de Verão 

Valores altíssimos de poluição na semana passada

terça-feira, 29 de novembro de 2016

A poucos dias de viajar de férias para Portugal, o tempo tem sido dividido entre as lides domésticas, os filhos, as aulas de mandarim e as compras de Natal. Com o marido fora em viagens de trabalho pela Coreia do Sul e a Tailândia, aproveitei para impor a mim própria algumas regras. À falta de tempo livre para voltar ao ginásio, regressei às refeições ligeiras, saudáveis e pouco calóricas (exceção feita aos fins de semana) … uma espécie de estágio pré-engorda natalícia. Procurei igualmente deitar-me cedo todas as noites. Chamemos-lhe uma “cura de sono” já que de manhã o relógio tem despertado, impiedosamente, às 6h30. Diria o meu rico paizinho que depois das 7h30 já é “apodrecer” na cama e que os dias devem ser bem aproveitados. Não sei como é que consegue, aos 65 anos, ter mais genica do que eu mas invejo-lhe esta garra e o gosto que tem em enfrentar todos os dias caminhadas de vários quilómetros, faça chuva ou faça sol. Por cá custa sobretudo enfrentar o trânsito caótico todas as manhãs mas pelo menos dentro do carro está quentinho e a seleção musical é 5 estrelas. Diz-se por aí que ainda é outono e parece que este ano as temperaturas de Pequim se adequaram à estação. Depois de meia dúzia de dias mais rigorosos e de um primeiro nevão (a 21 de novembro), pudemos todos retomar as nossas vidas sem medo de congelar mãos ou ver narizes a cair com temperaturas dignas de uma Mongólia. Mesmo assim é proibitivo sair à rua sem gorro, luvas, cachecol, casaco de boa qualidade e roupa interior térmica.

No início da passada semana, tinha o maridão acabado de descolar rumo a Seul, começou a minha mais recente saga. Ligam-me da escola do André para avisar que tinha havido um “pequeno” acidente mas que o garoto estava bem. Ora… bem, bem, não estava. “Só” tinha partido praticamente a meio os dois dentes da frente enquanto dava umas voltas de aquecimento durante a aula de Educação Física. Acelero para a escola e eis que me surge uma dúvida mesmo parva. Então…o rapaz vai precisar de um dentista. Mas onde, nesta “terrinha”, é que eu vou encontrar um bom profissional? O que fazer nestas alturas em que nos sentimos sozinhas e entregues a nós próprias? Felizmente que a minha querida amiga Ana me salvou e me deu o contacto de uma médica chinesa de categoria, com muita experiência e de confiança. A Dra. Cao (leia-se “tsau”) não é a minha adorada Dra. Carla Gomes em quem eu confio a 100% e que há muitos anos acompanha o André, mas no meio da minha aflição foi a Dra. Cao que nos ajudou e, ao que parece, o rapaz está em boas mãos. Foram 8 dias de expectativa mas valeu a pena a espera e o meu André já pode voltar a sorrir com confiança.
Quando caiu
Depois da ida à dentista









Ainda a semana não tinha terminado e eu já tinha tido duas aulas de mandarim com direito a exame por escrito e ditado de caracteres. A idade pesa e a paciência e disponibilidade para os estudos já não é o que era mas esta “obrigação” de estudar dá-me um propósito e um objetivo e mantém a minha mente saudável e funcional. Faz-me um bem tremendo e, muito embora me sinta uma completa ignorante numa das línguas mais difíceis do mundo, lá consegui tirar uma nota razoável e completar um ditado de caracteres de forma (quase) imaculada.


A primeira página do exame de Mandarim

Muito embora não seja típico da minha pessoa, a passada semana aceitei ainda o desafio de uma amiga e lá fui meter mãos à obra por uma boa causa. Confesso que nem todas as boas causas são “boas” aos meus olhos e, sinceramente, neste país de enormes contrastes faz-me confusão ver os estrangeiros a contribuir mais do que os próprios chineses. Chamem-me o que quiserem, julguem à vontade, mas numa cidade onde mais de 100 bilionários residem, num país com mais de meio milhar de bilionários, parece-me que há muita gente melhor capacitada para ajudar quem mais precisa sem precisar de recorrer a ajuda estrangeira. Infelizmente, muitos dos ricos deste país não sabem o que fazer a tanto dinheiro e, ao invés de o canalizarem para causas mais nobres, preferem dar-lhe uso em roupas de marca que usam uma só vez, carros de luxo, imobiliário, viagens e joias. E depois admiro-me que os pobres que nos esperam de braço esticado em determinados semáforos da cidade tenham como “alvo” preferencial os carros dos diplomatas e não os carros de luxo dos chineses … ou que as “ayis” prefiram trabalhar para famílias estrangeiras porque são melhor pagas e mais respeitadas. Nada disto me devia surpreender mas as estórias que quase diariamente me chegam ao conhecimento não abonam muito em favor dos chineses endinheirados. Apesar de tudo isto, lá fui eu armada em boa samaritana decorar bolachinhas de gengibre – as famosas “gingerbread cookies”. Gulosa que sou por esta iguaria surpreendi-me com o meu bom comportamento e não dei sequer uma dentadinha para lhes tomar o gosto. Dei o meu melhor por uma boa causa e, sobretudo, passei um bom momento de descontração e tagarelice em inglês e italiano-espanholês. Duas horas muito agradáveis que renderam mais de uma centena de bolachinhas decoradas que foram mais tarde vendidas e transformadas em lucro para uma obra de caridade.
Na CISB a preparar para decorar as bolachinhas
Algumas das bolachinhas que decorei













Quando empacotei parte da minha vida para vir morar em Pequim fiz questão de trazer duas caixas carregadinhas de artigos natalícios. Se podia comprar tudo aqui e a bons preços? Poder podia, mas não ia ser a mesma coisa. Os enfeites do pinheirinho têm vários anos e todos eles contam uma história, acompanham-nos enquanto família e é muito reconfortante poder reunir todas as peças ano após ano para mais umas semanas de espírito natalício. Este ano os miúdos acompanharam as decorações com canções e gargalhadas e a minha velhota Micas preferiu observar tudo à distância e ainda não resolveu destruir nada. Ainda assim, aproveitei o passado sábado para visitar um mercado bem conhecido da cidade e que, até à data, tinha ignorado. O Liangma Flower Market fica estrategicamente localizado na área das embaixadas e dos grandes hotéis, junto ao rio Liangma e, por estes dias, é dos melhores locais para adquirir árvores de Natal falsas e verdadeiras e todo o tipo de artigo natalício. Confesso que fui lá mais pela curiosidade do que pela necessidade de comprar, até porque tinha ficado com a impressão de que os preços eram pouco convidativos, mas vim de lá com algumas coisitas bonitas e baratinhas. Sem dúvida um local a visitar mais vezes.

No interior do Liangma Flower Market

Liangma Flower Market

Antes de terminar gostava de vos pedir um favor. Pensem um pouco naquilo que conhecem da China, a imagem que têm deste país e naquilo que eu vos fui contando ao longo destes meses. Pensem naquilo que gostariam de saber e ainda não sabem. Deixem-me as vossas sugestões de temas ou dúvidas para que em próximos textos vos possa “matar” a curiosidade.


E, em jeito de conclusão, deixo-vos uma curiosidade que descobri hoje durante a aula de Mandarim. Sabem o que diz um chinês a alguém que ouve a espirrar? Yī bǎi suì, ou seja, “cem anos de vida”. Achei curioso pois desejam que essa pessoa viva uma vida longa. 

domingo, 6 de novembro de 2016

Herança

Domingo, 6 de novembro de 2016. Assim, Elizabete, sem te dares conta, já estás aqui há um ano e quatro meses e o teu marido, grande responsável por esta enorme aventura, está aqui há dois anos. Lembro-me bem do dia 1 de novembro de 2014. Recordo, sobretudo, o nó cada vez mais apertado no coração, as lágrimas reprimidas e o sentimento de abandono. Já o disse aqui várias vezes: não gosto nada de despedidas, não sei lidar bem com elas, evito-as sempre. Digo sempre “até já” ou “até breve” porque quando elas (as ditas despedidas) nos fazem sangrar a alma é porque aquele (s) de quem nos despedimos são muito importantes para nós. Tanta angústia e agora olho para trás e passou tudo tão rápido.

Aliás, é impressionante como aqui o tempo passa rápido. Os dias são tão preenchidos que cá em casa nem nos lembrámos que terça era dia 1. Não houve lugar a um brinde nem a festejos, mas sei que, individualmente, cada um comemorou à sua maneira, agradeceu o que tinha de agradecer e refletiu sobre este percurso. Ele, melhor do que eu, poderia falar disto, das dificuldades que encontrou à chegada, das incertezas, do sentir-se “perdido” e tantas vezes questionar se teria tomado a decisão certa. Hoje podemos afirmar que deixar Portugal foi a melhor decisão que tomámos e que, a cada obstáculo, nos tornamos mais fortes como família, mais unidos e crescidos. Quando ouves o teu filho dizer que adora viver na China, que não quer sair daqui, que adora a escola onde está, sabes que estás no bom caminho e que o teu filho é feliz…apesar de toda a distância que o separa dos avós ou das comidinhas boas que ele adora. Quando se tem a felicidade dos nossos filhos, tem-se toda a riqueza do mundo. E não é esse o objetivo de qualquer pai? Pode soar a cliché mas é verdade. Poder proporcionar esta vida aos nossos filhos é o melhor presente para o futuro que lhes podemos dar e eu não falo aqui de ter estatuto diplomático, viver numa casa confortável ou ter uma conta mais ou menos recheada. Refiro-me à experiência fantástica que é, todos os dias, viver aqui (poluição à parte, condutores chineses à parte e comida falsificada à parte, claro!). Lidar diariamente com quatro línguas como a Catarina faz, ter amigos de uma dúzia de nacionalidades diferentes como o André tem, trocar experiências com crianças de outras raças e religiões, aprender a ser tolerante, tratar por tu a “diversidade”, explorar a cultura milenar deste país…tudo isto não tem preço. É a melhor herança que lhes podemos deixar: serem cidadãos do mundo.

Depois há a vida paralela de aventuras fora da China. Poder proporcionar-lhes viagens e experiências únicas noutros países faz parte da referida herança. Felizmente que nós, como casal e como pais, fazemos questão de viajar e dar-lhes a conhecer o mundo. Por nossa culpa o André já conhece 18 países diferentes e viaja desde os 6 meses. Por nossa culpa a Catarina viaja desde os três meses e já viajou para 7 países. Há quem gaste dinheiro em vícios, almoços ou jantares fora várias vezes por mês, roupas e outros acessórios caros, nos últimos gritos da tecnologia, a dar aos filhos tudo o que pedincham, a ir ao cabeleireiro todas as semanas. Nada contra todos estes gastos. Cada um faz aquilo que quer com o dinheiro que tem. Eu não tenho qualquer problema em dizer que compro roupas baratas na Primark ou nas lojas dos chineses como também não tenho problema nenhum em dizer que adoro gastar dinheiro em viagens e em livros. São o meu luxo e o meu vício. Que se lixem as marcas, para mim um carimbo no passaporte e mais um livro devorado têm muito mais valor.

E por aqui a vida é feita de contenção na hora de gastar dinheiro em coisas supérfluas (como sempre fizemos) porque o dinheiro deve ser poupado para aquilo que consideramos verdadeiramente importante. Se perguntarem ao André ele dir-vos-á que primeiro o dinheiro é para comida, saúde e roupa e depois é que vêm os outros gastos. Foi ensinado assim desde pequenino e com a irmã é igual. Não têm tudo o que querem nem quando querem e todos os gastos são ponderados porque todo o euro ganho pelo pai é poupado e gerido pela mãe e, ao contrário do que muitos possam pensar, cada euro custou muito a ganhar.

É por isso que, depois de ter gasto cerca de 600 euros no nível 2 de Mandarim, só posso mesmo levar o curso muito a sério. Mudámos de professora, já vos tinha dito? Pois mudámos. Muito embora a outra professora fosse uma querida, o dinheiro investido não estava a ser convenientemente rentabilizado. A mudança foi radical. Esta professora é excelente, muito profissional e exigente. Não nos dá margem de manobra para conversas da treta, põe-nos na linha quando espreitamos o telemóvel e obriga-nos a trabalhar com afinco. Custa a acreditar que 90% da aula seja em mandarim, que ao cabo de meia dúzia de aulas já aprendemos para cima de meia centena de caracteres e quando tentamos falar em inglês ela corta-nos logo o pio. Uma pequena ditadora de quem eu gosto cada vez mais. 

E para rematar em beleza deixem-me que vos diga que ao cabo de 14 meses de condução com o meu "bolinhas chinoca", milhares de impropérios proferidos, infrações ocasionais e alguns milhares de quilómetros percorridos…nem uma multa no cadastro!  

Mais uma estrutura gramatical aprendida

Com a lǎoshī  (professora) Yu e uma colega de grupo


domingo, 16 de outubro de 2016

China vs Japão

Que a China e o Japão são dois velhos rivais já todo o mundo sabe. Reza a história e os factos que os dois países vizinhos têm um longo passado de disputas, confrontos militares, invasões e crimes de guerra e, mais recentemente, franca competição económica. Apesar da rivalidade entre as duas potências asiáticas, o Japão é um país fortemente influenciado pela China, nomeadamente ao nível da escrita, da cultura, da arquitetura e da religião. Só quem conhece bem os dois países é que pode verdadeiramente compará-los mas como acabei de chegar de férias de um e vivo há alguns meses noutro, vou tentar falar-vos das diferenças que encontrei.

Assim, para começar, no Japão o acesso à Internet é feito de forma normal, sem quaisquer restrições, sem recurso a VPN (rede de comunicação privada). Por outro lado, se pensarmos que o acesso à internet leva ao acesso aos jogos online e que, por sua vez, estes podem levar a verdadeiras dependências, então é fácil de entender o vício dos japoneses pelo jogo. O “pachinko” é um dos exemplos mas existem outros. Por seu lado, na chamada “Mainland China” o acesso a determinados sites está vedado aos que não usam VPN mas, acreditando nas últimas notícias, esta situação pode deixar de existir em breve. Aguardemos… com esperança.

Os japoneses gostam do seu jogo de pachinko, do seu sushi e do seu ramen (uma espécie de sopa); os chineses gostam de ver novelas no telemóvel, de “dumplings” e de chá. Pessoalmente, prefiro o melhor dos dois mundos: ramen para abrir as hostilidades, ”dumplings” para degustar e uma cervejinha para acompanhar (deixemos o chá para os seus aficionados, afinal de contas sou portuguesa!). Um dos nossos almoços foi sushi. Estava bom, vá, tenho de concordar. Ou isso ou eu estava cheia de fome. Não sou grande fã de sushi. Entendo a moda que se gerou nos últimos anos à volta desta iguaria japonesa mas aviso já que os restaurantes japoneses estariam às moscas se todos partilhassem da minha opinião. Não saio de casa para ir comer sushi, muito menos aos preços que se praticam por aí. Abri uma exceção porque estava na terra do dito cujo e “parecia mal” não lhe dar uma segunda oportunidade. Lá comi, gostei, mas ainda assim não me convenceu. Os kebabs que vi uns metros à frente, depois de ter comido sushi, tinham-me sabido bem melhor, garanto-vos. E porque o objetivo deste texto é comparar duas culturas, no campo culinário a China bate o Japão aos pontos. Viva o Pato à Pequim, os “dumplings”, o “fried rice”, os “noodles” e afins! Vivam os produtos fora de prazo, a água da torneira que não se pode beber, o peixe e o marisco manhosos, as carnes congeladas, descongeladas e “recongeladas”…não…isso não, claro que não! Definitivamente nesta área o Japão sai vencedor. O peixe é fresquíssimo, nas prateleiras dos supermercados os produtos estão dentro do prazo de validade e a água é totalmente potável. Os japoneses devem ter uma autoridade tipo ASAE, coisa que na China parece não existir. É como estar em Portugal e ir ao supermercado fazer compras. O problema é que no Japão temos que desembolsar o triplo pela maior parte dos produtos. Embora já tivessem comentado comigo que o custo de vida lá é muito elevado, nada me preparou para ver um cacho de uvas a 14 euros ou cada maçã a 2. No final destas férias voltei para Pequim a achar que afinal a vida aqui não era assim tão cara.

Apesar do elevado custo de vida, no Japão vive-se bem, de forma civilizada, com regras, com pontualidade, respeito e honestidade. Ora vejamos. À chegada ao aeroporto deparei-me com um serviço rápido e eficiente. O facto de termos aterrado no segundo aeroporto de Tóquio (Haneda) pode ter ajudado. O tempo desde a saída do avião até apanhar o táxi não demorou mais de 30m. Ao entrar no táxi parece que entramos noutro mundo. Taxista de fato, luvas brancas, a falar inglês razoavelmente e a ligar o taxímetro sem que seja necessário “recordar-lho”. Táxi, modelo antigo de marca desconhecida, mas espaçoso, limpo, cheiroso, decorado com rendas brancas no banco traseiro e, muito importante, com cintos de segurança. Na China é “quase” assim. Os taxistas andam vestidos de forma normal, é uma sorte não fumarem dentro do táxi, “esquecem-se” frequentemente de ligar os taxímetros, não falam nadinha de inglês, os táxis nem sempre têm um aspeto limpo e, embora as rendas brancas também estejam presentes, cintos no banco de trás é que nem vê-los. Depois há toda a questão das regras de trânsito. No Japão existem regras que são cumpridas. Na China também existem, só que são simplesmente ignoradas pela maioria dos condutores. Depois admiram-se que aqui existam engarrafamentos e lá não! Já para não falar nas passadeiras. Enquanto na China são “adornos” urbanos, pintadas no chão porque deve ter sobrado tinta de um qualquer local de construção, no Japão elas estão lá para ajudar os peões e são escrupulosamente respeitadas por todos!

Já que estamos a falar de meios de transportes, convém referir a atenção que os japoneses dão aos acessos a deficientes/carrinhos de bebé nos seus transportes públicos, nomeadamente metro e comboio (os que usei com mais frequência). Um deficiente em cadeira de rodas ou uma mãe com um carrinho podem usar estes transportes sem quaisquer limitações pois todas as estações estão apetrechadas com elevadores e rampas que facilitam a circulação destes utentes. Há, inclusive, funcionários que auxiliam estes utentes a entrar e sair das carruagens. Uma diferença abismal, abismal, se formos a observar o que se passa na rede de metro da capital chinesa. Como mãe que durante meses teve que recorrer a um carrinho de bebé para transportar a filha, posso dizer-vos que evitei sempre usar o metro em Pequim quando estava sozinha. Lanços de escadas “normais” e escadas rolantes de 20 e mais degraus são impossíveis de ultrapassar quando se tem um carrinho ou uma cadeira de rodas. Nenhum deficiente, mãe ou pai deveria ter que passar por estas limitações onde quer que seja, muito menos numa cidade como Pequim.

Ainda no campo dos transportes, uma última e rápida palavra para as bicicletas. Aqui a China está muito à frente do seu vizinho. Por cá a bicicleta, as scooters e as motorizadas elétricas são rainhas. Chinês que se preze tem uma bicicleta ou uma dessas motos. São práticas, de fácil e barata manutenção e uma boa alternativa ao trânsito caótico das grandes cidades. Nas ruas de Pequim podem encontrar-se muitos modelos diferentes, usados por particulares ou empresas, para distribuição de correio, água, lixo, encomendas de lojas online, alimentação, entre outros.  Já em Tóquio o número de velocípedes é diminuto se compararmos com Pequim mas ainda assim encontrei uns modelos bem catitas para quem tem dois filhos pequenos e os quer transportar sobre rodas para todo o lado.

E que dizer da limpeza e da organização? Por um lado o Japão com ruas limpas, tudo ordenado e planeado. Por outro lado a China onde reina a desarrumação e onde é muito fácil encontrar lixo espalhado nas ruas. E as casas de banho? Meu Deus, as casas de banho! Invenção japonesa ou não, por lá qualquer casa de banho tem a sua sanita toda aparelhada de botões para lavar as partes íntimas dos seus utilizadores, com esguichos diferentes consoante sejam homens ou mulheres, com regulação de temperatura e algumas até com música ambiente. Definitivamente muito à frente os nossos vizinhos. Por cá é muito raro encontrarem-se estas sanitas, principalmente em espaços públicos. Nem as “nossas” sanitas são fáceis de encontrar. Qualquer museu ou local turístico tem as sanitas incorporadas no chão, para fazer “à caçador”, e apenas uma ou duas das “normais”. Já para não falar dos sanitários públicos chineses, verdadeiros ataques mortíferos ao olfato de qualquer um. Prometo que em breve me debruçarei com maior atenção a esta questão.

Em jeito de conclusão, basta-me deixar uma última consideração. E que tal passar 8 dias no Japão sem sentir qualquer tremor de terra? Isso sim, um verdadeiro feito. 



Zona de fumadores junto à estação de Shibuya

No interior de uma carruagem do metro

Sushi!

Mapa da Tokyo Station

Ramen

Uvas a 14 euros?!?!?!?!

As famosas sanitas

bicicletas adaptadas (foto retirada da internet)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Chinesices - parte 1

Quase quinze meses depois de ter aterrado no PEK (Aeroporto Internacional de Pequim), acredito que neste momento os meus dias estão no chamado “ponto de rebuçado”, felizmente sem a carga calórica adicional. Algumas das metas que me propus alcançar estão bem encaminhadas e isso faz-me sentir bastante bem. Acima de tudo, sinto que consegui estabelecer um equilíbrio, um ritmo e uma rotina saudáveis que me permitem sentir útil, ocupada e, sobretudo, com pouco tempo livre. Aliás, tão pouco tempo livre que ainda não tinha arranjado umas horinhas para me dedicar a este blogue. J (So sorry about that!)
Com grande pena minha também não tenho tido disponibilidade para ler. A pilha de livros continua no escritório à minha espera e a “wishlist” tem aumentado. Apetece-me muito passar umas horas no meu novo e confortável sofá com a minha Micas e um bom livro mas a prioridade tem sido o ginásio e as aulas de Mandarim que começaram semana passada. Voltar a Portugal de férias passou a ser sinónimo de engorda e estava na hora de voltar à forma que me propus alcançar há dois anos. Entre caminhadas, alguma corrida, boas escolhas nutricionais e muita força de vontade estamos todos (quase todos porque a pequena não precisa!) no bom caminho da boa forma física. E desenganem-se os que pensam que não preciso. Então não sabem que daqui a três meses estou novamente em Portugal para a engorda natalícia?! Preciso de lá chegar com margem de manobra para o pecado da gula. J
Voltar a Portugal, ou simplesmente estar de férias fora da China, acarreta um outro problema muito grave (para além do facto óbvio de que se gasta muito dinheiro!) que é não se praticar Hànyǔ (a língua chinesa). Com quem poderia eu praticar o meu extremamente básico Mandarim em Portugal? Indo fazer compras às “lojas dos chineses” ou comendo “arroz chau chau” todos os dias, dizem vocês. Pois bem, não fiz uma nem outra e quando cá cheguei o meu Mandarim “extremamente básico” estava no nível “praticamente indecifrável”. Integrar uma turma de nível 2 só serviu para confirmar o que eu já temia: esta língua é muito (mesmo muito) difícil e só se consegue aprender se se praticar todos os dias. Felizmente este novo grupo é ainda mais engraçado e heterogéneo do que o anterior: eu, uma dinamarquesa, uma lituana, uma brasileira e uma inglesa guiadas por uma lǎoshī (professora) de vinte e oito anos, também ela muito bem-disposta. Não há maneira de estas aulas serem aborrecidas e temos todas muita paciência para ouvir os disparates que nos saem pela boca fora.
E por falar em disparates, há duas ou três situações que eu preciso de partilhar convosco e que, direta ou indiretamente, têm a ver comigo e com a cultura e a tradição chinesas. A primeira delas tem a ver com as minhas idas ao ginásio. O espaço que frequento fica no condomínio onde moro, o que torna as idas mais confortáveis porque nem sequer tenho que sair à rua e em três minutos estou lá. O espaço é agradável, tem boas instalações e funcionários simpáticos…um pouco intrometidos, mas simpáticos. Para além do ginásio propriamente dito podemos praticar yoga, zumba, pilates, natação, ténis de mesa, xadrez, bilhar, squash, entre outros. Em Portugal nunca fui grande adepta de ginásios e, nos meses que frequentei, não me lembro de nenhuma situação constrangedora. Ajudem-me aqui meninas. Uma pessoa chega, troca-se, vai queimar umas calorias, faz uns alongamentos, regressa ao balneário, toma o seu duche, veste-se e sai. Esta parece-me a ordem natural das coisas. Pois por aqui, para além destes passos mais óbvios, há também o chamado “observar”. Este desporto parece-me bastante popular por estas bandas e as funcionárias do balneário feminino são as verdadeiras Usain Bolt do “observar”. É vê-las inspecionar a tua técnica de lavar as mãos, de apanhar o cabelo, de tomar duche ou simplesmente de apertar o soutien…acessório desconhecido de muitas chinesas. Uma pessoa sente-se nua…quer dizer, duplamente nua, desprotegida, invadida…mas depois apercebes-te que não é só contigo que fazem isto. É com todas as utentes, estrangeiras e chinesas. Hum…muito estranho!
Mais estranho ainda é ser-se mulher chinesa e grávida neste país. É todo um mundo novo de esquisitices que se abre à tua frente e nem sabes muito bem como reagir ou pensar. Após décadas de restrições quanto ao número de filhos permitido por casal, políticas mais ou menos contestadas e mais ou menos contornadas consoante os zeros à direita na conta bancária, hoje em dia é muito comum encontrar-se uma chinesa grávida. Elas andam ainda e são verdadeiras portadoras do futuro desta nação. Carregam um filho no ventre e séculos de cultura e tradição às costas.
Vocês sabiam que durante a gravidez a mulher não pode beber nem comer nada que seja frio? Água? Só quente! Chá? Nem pensar. Os chineses acreditam que tem propriedades negativas para o feto. Outros alimentos frios e até crus? Esqueçam! Convenhamos que à falta que a Asae faz por estes lados, algumas destas restrições deviam ser sempre seguidas à risca. Gelados? Também não! OMD! Que frustração!
Vocês sabiam que depois de dar à luz uma mulher não pode tomar banho durante um mês? Não pode sair de casa, tem que manter portas e janelas fechadas e não pode sequer ligar o ar condicionado mesmo que seja verão e estejam 40° à sombra?
Basicamente as parturientes chinesas devem permanecer em descanso total durante um mês sem poder abusar na leitura e na televisão (será que o mesmo princípio se aplica aos telemóveis?), não devem chorar (porque pode perturbar o bebé e faz mal à visão da mãe) nem devem receber visitas durante esse mês com exceção das avós do bebé. As regras do “zuò yuè zi” (o chamado “mês sentado”) variam de região para região e de família para família. Existem as mais tradicionalistas e outras que nem por isso mas mesmo as jovens mães modernas, instruídas e viajadas se sentem muitas vezes impotentes perante a enormidade de regras impostas pela própria família durante este período tão especial.

Depois de saberem disto não se sentem felizardos por terem nascido em Portugal?
Primeiro texto do nível 2 de Mandarim

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Esta Tuga regressou a Pequim

Final do mês de agosto. Mês de férias por excelência, de regresso ao país natal para muitos emigrantes, de sol, praia, calor, dias longos e noites quentes. Há muito que o mês de agosto não tinha um significado tão especial para mim, tão Tuga e tão saudoso como este. Habituada que estou a viver fora do país, este agosto teve um significado especial pelas boas e más recordações que dele guardarei para sempre. Regressar ao Porto soube-me muito bem. Revisitar lugares, reencontrar amigos, “tirar a barriga de misérias” e, sobretudo, o miminho dos pais e poder proporcionar-lhes o convívio com os netos queridos. Não é isso que todo o Tuga emigrante faz quando vai a Portugal de férias? A “obrigatória” ida a Fátima (embora não me considere católica praticante, é uma viagem que me agrada fazer e um local que gosto de visitar pelo menos uma vez por ano). Cada um tem as suas razões e eu cá tenho as minhas. 
Visitar o Porto. A “minha” cidade está linda! Viva, vibrante, colorida, multicultural, poliglota, multifacetada, de cabeça erguida e confiante no seu potencial. As gentes do Porto só podem ter razões para estarem felizes. Sinto-me orgulhosa da “minha” cidade que, apesar de não me ter visto nascer, por lá me vê desde que nasci. Adorei percorrer as suas ruas com olhos de turista curiosa e fascinada. Adorei revisitar lugares e tive pena de ter deixado outros para trás mas infelizmente o tempo não chegou para tudo. O tempo nunca chega para tudo mas não considero que o tenha desperdiçado enquanto aí estive. Foram dias preenchidos mas estive (quase sempre) onde realmente queria estar, com quem queria estar e a fazer o que queria fazer. Se não estive com algumas pessoas, que me perdoem, mas em dezembro podemos compensar essa falha. Pelo meio tive momentos menos bons, pesados, sofridos, de enorme ansiedade e angústia que só eu soube bem a sua dimensão. No final, a vida tomou o seu rumo natural…como sempre faz…e nós só temos que saber adaptar-nos às novas circunstâncias.

Regressar a Pequim continua a não ser fácil. Deixar (quase) tudo para trás não é tarefa simples, nunca é. Felizmente sou dotada de uma enorme capacidade de adaptação. Acho que esse é, verdadeiramente, o meu ponto forte. 
O regresso à escola do André está a ser um sucesso. Ano novo, turma nova (só tem dois colegas da turma anterior), professor novo (“adeus” ao canadiano Mr. Roberts e “olá” ao neo-zelandês Mr. Attwell) e muitos desafios pela frente. Para começar, fez os testes e entrou para a seleção sub11 de futebol da escola. Objetivos para este novo ano? Muitos! O André tem 5 quilos para perder, dar o seu melhor no futebol, lutar por um lugar na seleção de natação da escola, superar as suas dificuldades no Inglês, fazer novos amigos…e ler, ler muito! 

O regresso da Catarina à pré não foi tão pacífico. Apesar dos primeiros dois dias terem sido muito positivos, esta semana a minha menina acusou a ausência de dois meses e voltou a recusar o pequeno-almoço, voltou a sentir-se ansiosa e chorosa na hora de se despedir de mim. Estou confiante que em breve tudo regressará ao normal pois sei que gosta muito da escola.


Aos poucos também eu me estou a readaptar à vida nesta grande cidade. Ter os enteados de visita por estes dias tem servido para passear um pouco mais mas tem-me afastado de um dos meus objetivos para este ano: voltar ao exercício físico. Agora que ambos os filhotes vão estar na escola todos os dias, um dos meus objetivos é perder os quilinhos extra (culpa dos pequenos-almoços bufet, das francesinhas, dos doces portugueses, dos convívios, dos gelados e das deliciosas comidinhas da mãe!) e regressar ao ginásio. Retomar as aulas de mandarim é outro objetivo, sem dúvida. Sinto-me completamente “enferrujada” e confesso que estou ansiosa por voltar a estudar esta língua fascinante. Mais objetivos? Claro! Continuar as minhas leituras, cuidar dos meus, dedicar mais tempo a este blogue, aproveitar bem as últimas semanas de verão antes que o outono se instale e continuar a explorar Pequim. Há ainda tanto para descobrir!

A vós, leitores mais ou menos assíduos, resta-me desejar que continuem a "ler-me", que tenham paciência nas minhas ausências e que contribuam com as vossas dúvidas, sugestões e comentários. Aos que ainda estão a gozar férias, aproveitem-nas bem; aos que ainda as vão começar, não as desperdicem e recarreguem bem as baterias; aos que ficaram colocados, boa sorte na nova escola e abracem com garra os novos desafios; aos que ainda não têm trabalho, não percam o ânimo. Beijinhos saudosos.

domingo, 17 de julho de 2016

"Buy me the sky"

Tarde de domingo, tanto programa interessante para se fazer fora de portas desfrutando do sol e do calorzinho bom que se faz sentir…e eu aqui, na varanda de casa a fazer o que mais me apetece: ler e escrever. Uma chávena de café e o chilrear dos pássaros como companhia, aproveitando o sossego das crianças e a disponibilidade dos avós para os entreterem. O café é vietnamita (delicioso!), o livro é da escritora Xinran mas as ideias que fervilham e lutam por sair são bem minhas.
Xinran – jornalista, apresentadora de rádio e escritora – é, acima de tudo, mãe e mulher. Uma mulher chinesa, nascida em Pequim há quase 60 anos. A viver em Inglaterra desde 1997, divorciada de um chinês, casada com um inglês, as suas palavras no livro “Buy me the sky – The remarkable truth of China’s one-child generations” cativaram-me desde o primeiro parágrafo.
Confesso que a autora me tinha passado despercebida até ao ano passado, mas a mudança para a grande metrópole asiática fez naturalmente surgir em mim a vontade de explorar a cultura e a História chinesas.
Há uma série de questões que são colocadas logo no inίcio do livro e que me deixaram a pensar. Porque é que há uma diferença tão profunda entre as cidades e o campo? Como é que podem existir décadas de separação entre lugares dentro do mesmo paίs governado pelas mesmas leis? Quem é que representa o povo chinês hoje em dia? Os homens de negócios que saltam de aeroporto em aeroporto ou os pequenos agricultores sem qualquer instrução que percorrem a pé vilas e aldeias em busca de um meio de subsistência? Se a China é um paίs comunista, então por que motivo os pobres das zonas rurais não têm qualquer tipo de apoio do Estado? E se é um paίs capitalista, por que razão é que a economia é liderada por um partido único?
Estas e outras questões não são de fácil resposta e, muito honestamente, após a leitura do livro não fiquei muito mais esclarecida. As palavras de Xinran têm o dom de nos obrigar a pensar e estas levaram-me de volta às mulheres que todos os dias se cruzam comigo em Pequim. Será que estas avós, mães e filhas passam provações na grande cidade? Terão elas nascido na capital ou vieram “fugidas” da pobreza do campo? Será que, apesar da opulência exterior de algumas, por dentro estão ocas de sentimentos, imunes ao sofrimento dos outros? Terão elas irmãos ou irmãs com quem partilhar alegrias, tristezas, cumplicidades? Terão um, dois ou mais filhos?
A condição feminina na China não é o ponto fulcral deste livro mas é um tema que atravessa, inevitavelmente, todos os testemunhos que nele se podem ler. Mulheres forçadas a uma vida de sofrimento, sacrifίcios e decisões que nenhuma mãe deveria ter que tomar. Fachadas de riqueza e ostentação a caminhar lado a lado com lágrimas reprimidas e sonhos destruίdos. Filhos cuja condição de “únicos” lhes dá luz verde para a arrogância, o desprezo e a ingratidão. Que sociedade é esta que coabita comigo? Gerações de “filhos únicos” numa era de novas tecnologias onde os únicos objetivos são subir mais um degrau no status social, amealhar mais uns “yuans”, vestir as últimas tendências, comprar o último grito da Apple, comprar o carro mais vistoso e potente…e, ao mesmo tempo, ver um filho como um “acessório” necessário na ascensão social, um “estorvo” que se deve deixar ao cuidado de uma “ayi” (empregada doméstic
a)…
Não se compreende como é que a primeira geração de “filhos únicos” é tão diferente da segunda e esta tão diferente da terceira. Numa era de extensas transformações sociais, abertura ao exterior e crescimento económico, os filhos desta grande nação andam à deriva, perdidos entre os conceitos de “certo” e “errado”.
Após a leitura apaixonada deste livro, fica a grande dúvida: o que será da China, destes filhos e seus descendentes? Como será o futuro da China e que papel é que estes “jovens perdidos” terão a nίvel mundial?

Aconselho vivamente a leitura desta e de outras obras de Xinran. A minha próxima já está escolhida!