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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Um ano de Pequim

Porque viver uma aventura na China implica viajar muito, este texto vai causar algumas dores de cotovelo. Para os que conseguirem ultrapassar isso, leiam com carinho e faço votos que um dia possam vir a fazer o mesmo, se for essa a vossa vontade.

Pessoas que volta e meia andam por aí de férias, digam lá se tenho ou não razão. Passam-se anos a sonhar com o destino; passam-se meses a pesquisar (o que ver, o que visitar, o que comer, onde comer,  locais de interesse histórico, tesourinhos escondidos, etc); uma semana  antes prepara-se a partida, contam-se os dias, as horas e minutos…para finalmente se chegar ao destino e os dias passarem a voar!
Salvo raras exceções, sempre fiz viagens de uma semana mas se há coisa que esta vida de turista me tem ensinado é que uma semana fica sempre a saber a pouco. “A praia era linda, era menina para ficar lá esparramada mais uns dias”…”não cheguei a visitar aquele sítio, deveria ter ficado mais uns dias”…”o hotel tem uns pequenos almoços dignos de um rei, para a próxima marco mais tempo”… e lá marcámos! 20 dias! E ainda assim soube a pouco! Banguecoque merecia mais saídas noturnas mas com crianças pequenas torna-se uma aventura complicada. Phuket merecia mais horas de leitura, descanso e massagens. Ho Chi Minh merecia mais esplanadas, mais café e mais compras. Hanói merecia mais comida de rua e mais passeios de mota. 20 dias depois acabaram-se mais umas férias em família,  criámos mais umas quantas memórias bonitas, aprendemos um pouco mais, saímos mais pobres de carteira mas mais ricos como seres humanos.

20 dias depois estava mesmo a precisar de outros 20 dias de férias… para descansar das férias. Contudo, 4 dias depois já tinha novamente as malas aviadas para rumar ao Porto.

Regressar à nossa terra sabe sempre bem, ainda para mais no verão. Sabe bem rever familiares e amigos, conviver, degustar as nossas iguarias e respirar ar puro. Em Pequim está abafado, poluído e húmido. Um calor insuportável no verão a contrastar com as temperaturas negativas e a neve dos meses de inverno. Não há praias para entreter as crianças , as piscinas ao ar livre são caríssimas e à mercê dos agentes poluentes e o rio Liangma não está bom para ir a banhos. O que fazer com duas crianças durante 45 dias nestas condições? A pensar sobretudo no bem estar delas e dos avós babados, gastam-se mais uns euros mas volta-se a ter a família separada. O marido a trabalhar e a mulher e os filhos a gozar mais férias.

No meio disto tudo, alguns acontecimentos bem importantes. Para começar, o Campeonato da Europa de futebol. Confesso que não tinha grandes esperanças nem criei muitas expectativas. Às custas da diferença horária de sete horas não vi nenhum jogo da nossa seleção enquanto estive pela Ásia. Através das redes sociais li os mais diversos comentários, nem todos abonatórios, mas a verdade é que os nossos jogadores foram cumprindo a sua missão jogo a jogo, com maior ou menor sofrimento. Chegada a Portugal já não tinha a desculpa da diferença horária mas já estávamos nas meias e a supersticiosa em mim falou mais alto. Afinal de contas, se não vi os outros jogos e eles ganharam, então deveria manter o registo para que continuassem em maré de vitórias. Foi o que fiz e, olhem lá, resultou! Ainda bem que não vi os jogos! Está bom de ver que foi às minhas custas que ganhámos a taça!

Foi um mês carregadinho de emoções fortes e grandes resultados desportivos - uns mais divulgados e festejados do que outros – mas todos eles importantes para levar mais alto e mais longe o nome do nosso país. Somos o povo do “desenrascanço”, um povo de brandos costumes, de vincadas desigualdades sociais, um povo com uma imensa história de emigração, de saudade e sofrimento e muitas vezes vivemos a olhar para baixo, a tentar acompanhar a passada dos “grandes” em vez de erguermos o olhar e caminharmos, no mínimo, ao lado deles. Eles, esses outros países que se dizem e fazem grandes, não são melhores do que nós. Só quem vive e trabalha fora do país é que tem a verdadeira noção da nossa grandeza, apesar de todas as nossas fraquezas.

Facto ainda mais importante e marcante do que a conquista do Campeonato da Europa foi o primeiro aniversário da minha estadia em Pequim. Um ano de China comemorado bem longe do país que nos acolheu em 2015, longe do grande responsável por esta mudança. Convenhamos que foi um ano muito positivo: 21 voos, 10 cidades visitadas, conquistas escolares dos filhotes e profissionais do maridão, entrevistas para a rádio…


A nível pessoal foi um ano de superação de obstáculos. Voltei a escrever, adaptei-me a uma cultura diferente, regressei aos estudos e logo para aprender uma língua tão complexa, transformei uma casa num lar, li muito, fiz novas e boas amizades, reguei as velhinhas amizades para que possam continuar fortes e saudáveis...acho até que superei finalmente o meu medo de andar de avião. Com um ano assim, só posso estar grata por tanta coisa boa que aconteceu. E saúde, muita saúde…muito importante! Foram 366 dias em cheio! 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Quarta-feira, vinte e cinco de maio de 2016. 10 meses e 12 dias de vida em Pequim.

Parece-me incontornável referir a entrevista que a querida Alice Vilaça me fez há alguns dias. Nunca tinha ouvido o seu programa em Portugal e fiquei muito agradada com o seu profissionalismo e a forma como me deixou à vontade para poder falar sobre as minhas experiências. O grande instigador foi o meu pai.  Ouvinte atento e assíduo, um dia resolveu elogiar o programa na página do Facebook e a Alice respondeu. Receber feedback da própria jornalista foi, só por si, lisonjeador, mas o meu pai foi mais longe e falou-lhe da filha e do facto de eu estar aqui em Pequim numa nova aventura. E, pronto, surge o convite para uma entrevista. O que se pode dizer perante isto? Aceita-se e depois roem-se as unhas, imagina-se toda uma conversa e vai-se ao baú sacudir o pó das memórias de Timor e da Serra Leoa. Para quem me conhece há muitos anos ou para quem teve tempo, curiosidade e vontade de ouvir os 30 e tal minutos de conversa que tivemos, sabe como foi o meu percurso até aqui. Neste momento quero agradecer a todos os que me felicitaram pela entrevista. Foi mais uma experiência. Bem ou mal, com mais ou menos nervosismo à mistura, sei que fui eu própria, com direito a sotaque e tudo! Goste-se ou não se goste, esta sou eu…e a que falou na rádio também sou eu. Sou quem sou e estou onde estou em parte graças às escolhas que fui fazendo ao longo dos anos. Sou quem sou e estou onde estou porque cresci a ouvir estórias da Marinha em África, porque sempre me ensinaram a lutar pelos meus objetivos, porque cresci a viajar…primeiro dentro do país e depois na Europa. Estou onde estou e sou quem sou porque um dia ganhei coragem e em 10 minutos tomei a decisão mais marcante da minha vida. E foi essa decisão que mudou para sempre o meu rumo. Talvez exista um destino marcado para cada um de nós, talvez, mas quem toma as decisões sou eu.

Dito isto, outra decisão que tomei foi aprender Mandarim. E que decisão esta! Tem sido bastante agradável este percurso e garanto-vos que é para continuar. O bichinho de estudar está cá. Eu sempre gostei de estudar. Sempre fui uma estudante aplicada…que o digam os que me conhecem desses tempos. E ainda agora a minha professora de Mandarim o diz. Também se estou a pagar uma verdadeira fortuna por estas aulas (600 euros só para o nível 1), tenho mais é que as aproveitar ao máximo. E valeu a pena. Ainda que só saiba desenrascar-me para ir fazer umas comprinhas ao mercado, fazer uns pedidos no restaurante ou falar com o taxista, a verdade é que paralelamente ao programa se aprende muito da cultura chinesa e isso não tem preço. Concorde-se ou não com a maneira de ser deste povo, com os seus costumes e métodos, a cultura chinesa é riquíssima e tão diferente da nossa que todos os dias se descobre algo de novo que nos deixa a pensar.
Semana passada, por exemplo, fiquei possuída de raiva. Já se sabe que por aqui o respeito pelas regras de trânsito é muito relativo. Testemunho isso todos os dias, várias vezes ao dia e, honestamente, já devia estar habituada mas há coisas que não consigo engolir. Estou quase a chegar à escola do André para o ir buscar e deparo-me com um grupo de cerca de 15 pessoas à espera para atravessar a passadeira. Resolvo fazer o mais normal e civilizado e abrando até parar para os deixar passar. Qual não é o meu espanto quando verifico que todos, sem exceção, permanecem parados e a olhar para mim como se fosse alguma ave rara que tivesse acabado de pousar ali. Gente, eu não sou nenhum OVNI. Isto é uma passadeira, vocês são peões e eu parei. Qual é o filme aqui? O filme é que eles não atravessaram, eu fiquei a fazer figura de alien e para ajudar à festa chega-se atrás de mim um carro da polícia, isso mesmo, leram bem, e resolve apitar-me e ultrapassar-me. E eu o que fiz? Passei-me. Deixei andar a polícia e depois comecei a passar-me com os peões indicando-lhes a passadeira e mandando-os passar. Que raio!!! Fiquei verdadeiramente furiosa com aquela situação, com a polícia e com os peões mas pensando bem eles é que têm razão. A alien aqui sou mesmo eu. Venho para cá cheia de ideias civilizadas, a fazer o bem e tentando que eles percebam que estão a proceder erradamente. Mas como é que eu, sozinha, posso fazer frente a séculos de mentalidade distorcida e do dia para a noite ensiná-los? Impossível, certo? Portanto, “lesson learned”. A partir desse dia deixei de ser “totó” e passei a ignorar os peões nas passadeiras. Não querem passar? Quem sou eu para os contrariar! Claro que a minha natureza civilizada não foi enterrada nas profundezas. De vez em quando porto-me bem e recebo em troca uns olhares estranhos mas, enfim, “this is China”! Habitua-te Elizabete!
Aprende-se muito sobre um país explorando-o fisicamente mas também lendo sobre a sua história e cultura. Há uma autora que já conheço há algum tempo mas que só agora tive oportunidade de começar a ler e que me está a deliciar com a sua narrativa. Xinran é uma jornalista chinesa nascida em 1958 em Pequim e autora de vários livros sobre a condição feminina na China e sobre a política do filho único que entrou em vigor neste país na década de 70. Com uma visão privilegiada da cultura chinesa e da cultura ocidental (mudou-se para Londres em 1997), é através dela que estou a perceber melhor uma parte da história recente da China. Tem sido uma viagem de descoberta desde que cá cheguei e agora encontrei em Xinran uma guia excelente. O livro que estou presentemente a ler – Buy me the sky – não será certamente o último. 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Em abril...

Em abril…águas mil…pois sim mas só por terras lusas pois por aqui a Primavera vive-se com tempo seco e uns bonitos 26 graus.

Precisamente um mês depois do último texto, estou de volta com o relato de mais umas quantas aventuras. Sinto, no entanto, que vos devo uma desculpa. Este blogue começou por receber vários textos por mês e por agora só está a receber um. A ideia não é torná-lo mensal mas as circunstâncias do dia-a-dia não têm permitido que seja de outra forma.

Um típico dia de uma dona de casa não passa por ver todas as telenovelas brasileiras ou ir tomar café com as amigas igualmente “desocupadas”. Os meus dias passam por uma série de tarefas que também cansam, que também moem: preparar refeições, ser motorista, fazer compras, arrumar a casa, passar a ferro, brincar com os filhos, ajudar a fazer os tpc, etc, etc, etc… na verdade eu fazia tudo isto quando era professora em Portugal…só que aí não “perdia” tanto tempo no trânsito, preparava menos refeições (não cozinhava ao almoço), tinha os avós por perto para dar uma ajudinha com as crianças e também cheguei a ter empregada. Bom, as desculpas valem o que valem e vocês podem dizer que fazem isso e muito mais e que não entendem o meu “cansaço”. Na verdade não me estou a queixar. Estou apenas a explicar por que razão não tenho dedicado mais tempo ao blogue, assim como não tenho dedicado mais tempo à leitura ou ao Facebook ou a passear…são escolhas que se fazem e prioridades que se definem.

Voltando às minhas aventuras…a maior neste mês que se passou foi o meu aniversário, claro está. Um belo dia de primavera, a família, alguns amigos e um excelente almoço bastaram para que fosse um dia (quase) perfeito. Fomos almoçar ao Din Tai Fung – uma marca com origem em Taiwan e que hoje em dia tem restaurantes espalhados pelo mundo. Foi o segundo restaurante da marca que visitei e mais uma vez não fiquei arrependida. Que delícia de “xiaolongbao” (soup dumplings), “jiaozi” (dumplings) e “baozi” (steamed buns). Bem à medida da ocasião! Só não foi 100% perfeito porque não tinha comigo os meus pais, também eles de parabéns. Contudo, recebi um belo (e por sinal caríssimo) ramo de flores do maridão e dos filhos, uma planta e um bolo de aniversário muito gostoso da prima e mais uns presentes de alguns amigos. Acima de tudo, senti-me feliz e preenchida apesar da distância dos meus pais e dos meus velhos amigos. Recebi também muitas mensagens e algumas tocaram bem fundo no meu coração, de amigos a quem quero o melhor do mundo e que nem sabem o bem que me fazem só por estarem lá, do outro lado, quando me apetece dizer um simples “olá”. Depois há os outros, aqueles com quem não falo há tanto tempo, com quem não tomo café há eternidades mas que me fazem uma falta imensa. Todos vocês têm a vida preenchida e ocupada, assim como eu tenho a minha, mas é tão bom ter notícias vossas, nem que seja pelo Facebook. Fico grata pelo vosso carinho. Oxalá haja possibilidade de me encontrar com alguns no meu regresso a Portugal este verão. 

O André continua na sua luta diária para aprender Inglês e posso garantir-vos que estamos muito orgulhosos do seu percurso. O feedback dos professores tem sido muito positivo e os progressos na língua de sua majestade Isabel II (que amanhã completa 90 anos!) são bem visíveis. A Catarina também está muito bem adaptada: fala em chinês, canta em inglês e faz birras em português. Uma verdadeira poliglota.

Páscoa 2016
A 27 de março celebrou-se a Páscoa. Confesso que a data me teria passado completamente despercebida não fosse o almoço que o CPP (Clube Português de Pequim) organizou no bairro de Gulou (outra zona emblemática e central da cidade). O assado de Páscoa, o pão-de-ló e as amêndoas foram trocados por bombons, ovinhos de Páscoa para decorar e um buffet eclético e divertido. Não foi melhor nem pior do que em Portugal, foi diferente. Foi sobretudo mais um pretexto para juntar falantes da nossa língua e conviver com os amigos.

No início deste mês celebrou-se o Qingming Festival, também conhecido como Tomb Sweeping Day. Há quem o compare ao “nosso” 1 de novembro por se tratar de um dia de feriado nacional dedicado aos familiares falecidos. Neste dia é comum visitar-se os cemitérios, limpar os túmulos dos entes falecidos, rezar e prestar-lhes homenagem através da oferta de flores, comida, chá, vinho e incenso. Nesse dia feriado (uma segunda feira) aproveitamos o bom tempo e fomos visitar os “hutongs”, bem no coração de Pequim. Os “hutongs” são visita obrigatória para quem vem à China, especialmente se o destino for Pequim ou uma qualquer cidade do norte onde os “hutongs” são mais comuns. Trata-se de um conjunto de ruas estreitas e becos que se cruzam formando pequenos aglomerados ou bairros com arquitetura tradicional chinesa. Em Pequim existiram muitos ao longo dos séculos mas a certa altura o desenvolvimento económico e o crescimento demográfico ditou a demolição de muitos para no seu lugar serem erguidos edifícios gigantes e modernos. Hoje em dia os chineses têm uma visão diferente e é tempo de preservar estes lugares centenares que ainda sobrevivem. Muitos deles estão transformados em zonas comerciais e habitacionais onde o chinês e o turista coabitam com naturalidade. A Primavera é uma altura muito agradável para se visitar um “hutong” pois aproveita-se, em simultâneo, o bom tempo, as comidas de rua, a boa disposição das pessoas (libertas que estão das amarras do inverno rigoroso), os terraços e esplanadas (sem correr o risco de derreter ao sol) e as imensas árvores floridas que convidam a muitas selfies. Passámos um dia muito agradável no “hutong” junto ao lago Shichahai, comemos “jiaozi” no Mr. Shi’s – um “tasco” com uns dumplings maravilhosos - deixámos a nossa bandeira na parede do restaurante e cheguei a casa com uma valente dor nos pés. A reter para uma próxima aventura nos “hutongs”: experimentar mais comidas de rua, tirar mais selfies e calçar sapatilhas.

Uns dias mais tarde, aproveitando mais um excelente dia de primavera e baixos níveis de poluição, fomos dar uma espreitadela (de quase 4 horas) ao mercado de Panjiuyuan. Diz-se por aí que é o maior mercado de antiguidades de toda a Ásia e eu sou menina para acreditar. Com mais de 3000 bancas e dos mais variados artigos à venda (antiguidades e não só), vale bem a pena a visita…mesmo que apenas se tenha comprado incenso.
Pormenor de uma esquina 

E os planos para novas aventuras não param. Já na próxima sexta-feira teremos uma “Multicultural Food Fair” na escola do André. Vamos ter a oportunidade de dar a provar à restante comunidade escolar alguns dos nossos tesouros gastronómicos. Logo vos conto como correu. Temos umas quantas surpresas na manga.
@Mr. Shi's restaurant


Por aqui ou na página do Facebook, não deixem de seguir as nossas aventuras e vão deixando os vossos comentários, questões ou sugestões. Continuação de boa semana para todos.  

No lago de Shichahai

domingo, 20 de março de 2016

Bem-vinda Primavera!

Dá para acreditar que já estou aqui há 8 meses? Impressionante como o tempo voa! Não há um dia que passe e eu não me sinta arrebatada pela imponência e singularidade deste país. Ainda hoje, enquanto aguardava impacientemente na fila pela mudança do semáforo, me pus a observar o movimento à minha volta. Nem a avenida mais movimentada de Lisboa e do Porto, juntas, em hora de ponta, conseguem ultrapassar o frenes de uma qualquer avenida de Pequim às 11h da manhã. Experienciar isto e, semana após semana, levantar as camadas desta cultura, é uma verdadeira aventura e sinto-me uma felizarda por poder estar a fazê-lo.
Claro está que nem tudo são rosas pois também estas têm os seus aguçados espinhos. A poluição, os cortes constantes no acesso à Internet e o custo de vida, a par das saudades da família e amigos, são o lado negativo de toda esta experiência.
E por falar em custo de vida… hoje de manhã fui às compras. Duas horas e meia a saltar de loja em loja à procura de promoções. Sei que já vos falei disto noutras alturas mas nunca é demais referir os preços exorbitantes que aqui se praticam e eu preciso de “falar” disto pois cada vez que vou às compras é como se estivesse a lutar contra um monstro de muitas garras. Um iogurte grego de 100gr a 4€? Um quilo de carne de vaca a 9€? Um pacote de leite meio gordo a 2,5€? Um quilo de farinha a 6€? Um cappuccino a 4€?????????? Que país é este de desigualdades tão profundas onde os ricos acham isto tudo super barato e os pobres nem se atrevem a entrar nos mercados? Dá que pensar!
Algo que ainda se consegue por aqui a preços razoáveis é uma empregada (ayi). Por 3,5€ à hora já se consegue arranjar alguém que nos venha limpar a casa e passar a roupa a ferro. Mas é preciso ter sorte com quem se arranja…Eu não diria que a nossa “ayi” foi uma má experiência. Eu gosto de pensar que foi uma experiência de aprendizagem. Alguém (que não eu) deveria dedicar o seu tempo livre à elaboração de um manual: “Como encontrar, negociar, contratar, lidar, explicar, aturar e despedir uma ayi”. Aposto que ia ser um verdadeiro sucesso entre a comunidade expat de Pequim. Encontrar foi, de facto, a parte mais simples de todo o processo. O problema foi ela aprender a fazer as camas e limpar as casas de banho decentemente. Além de que um pouco de humildade, genica e respeito não lhe tinham ficado mal. Sem entrar em pormenores, resta-me dizer-vos que foi uma experiência a não repetir e que ao fim de uma semana e meia já a tínhamos mandado embora.
Não me querendo alongar em assuntos delicados, e porque viver na China também significa ficar-se de vez em quando sem acesso à Internet, ter cuidado com o que se diz, escreve e lê, posso no entanto dizer-vos que muito se passou desde que contribui para este blog em meados de fevereiro. Para começar, já lá vão três semanas de curso básico de mandarim: seis aulas, dezoito horas, muita diversão, uma lǎoshī (professora) simpática, duas “colegas de carteira” bem dispostas (uma alemã e uma francesa)… e um valente nó a formar-se na minha cabeça com a mais recente introdução da aprendizagem dos caracteres chineses. Entenda-se: eu disse curso básico, não disse curso fácil. Pelo menos já consigo entrar no café e pedir o que quero sem fazer figura de ursa!
Continuando o tema Educação, o André tem progredido bastante na escola. Já fala com todos em inglês, mesmo com os seus colegas italianos, brasileiros e espanhóis. Ultimamente teve uma série de participações muito positivas em competições de natação, conseguindo segundos e terceiros lugares e melhorando os seus tempos pessoais. Go BobcatFish! Acima de tudo, ficámos muito felizes por querer participar nestes eventos, fazer mais amigos e manter-se saudável. Esta semana vai ser bastante preenchida lá na escola com várias atividades interessantes e ele anda em pulgas: hoje é o pink shirt day - dia da t-shirt rosa - assinalando o International Day for the Elimination of Discrimination and Racism, amanhã é dia de representar o seu país, quarta é o dia do pijama, etc…
Quanto à Catarina, não imaginava que em tão pouco tempo se ia adaptar tão bem à pré. Está a desenvolver-se a olhos vistos, com brincadeiras diferentes, adora contar histórias aos seus bonecos e põe os avós a fazer as maiores palhaçadas via Skype. Está também uma tagarela em português e em “mandarim catarinês”. Já entende e fala mais mandarim do que qualquer um de nós cá em casa!

E… terminou o Inverno. Ó sim…adeus neve, adeus vento cortante e gelado, adeus temperaturas negativas dias e dias a fio, adeus luvas, gorros, cachecóis, térmicas, botas de neve e casacos de esquimó!! Sejas bem-vinda Primavera - minha estação do ano preferida! Bora lá sair da toca e descobrir a cidade e os tons primaveris.

Pink Shirt Day

Com uma das professoras do 4º ano

Parte do grupo BobCatFish

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Ressaca pós-férias?

18 de fevereiro de 2016…e que mês tão diferente que foi este! 7 meses de vida em Pequim com balanço muito positivo, muitas peripécias vividas em família e muitas férias à mistura.

Vocês que me conhecem bem sabem o quanto adoro planear viagens, escrevinhar roteiros, reservar hotéis, fazer malas…e, mesmo com algum medo à mistura, andar de avião continua a ser um desafio agradável, ainda que por vezes tenhamos alguns contratempos. 
Conhecer o Hawaii estava na minha “bucket list” ainda antes do próprio termo existir. Para aqueles que não estão familiarizados com a expressão, “bucket list” é uma lista que cada um pode criar com as coisas que deseja fazer antes de morrer. Muito embora nunca me tenha dado para a registar por escrito, sei muito bem quais as coisas que quero fazer e, incrivelmente, essa lista aumenta todos os anos por muito que eu já tenha feito ou visto. A isso chama-se fazer planos, sonhar, ter objetivos, lutar, viver... A minha lista está repleta de destinos, anseia por carimbos no passaporte porque dos maiores prazeres que tenho na vida é viajar. Há quem goste de ler, comer, estudar, ir ao cinema, namorar… sei lá…um sem fim de prazeres que cada um sente e que nos traz felicidade. Eu sou menina para gostar disso tudo e muito mais!! É o melhor que levamos desta vida: poder sonhar e poder realizar os nossos sonhos e ter sempre capacidade para continuar a sonhar.

9 dias no calendário que na prática só foram 7 por causa das diferenças horárias. 9 horas de voo para lá e 12 horas para cá ainda que tenhamos feito exatamente o mesmo trajeto. À partida problemas no aeroporto de Pequim com o visto de entrada nos EUA. Afinal fomos erradamente informados e tínhamos de ter pedido um visto. Estamos no balcão do check in quando nos avisam. 2 horas de corrida contra o tempo, contra uma rede informática lenta e um formulário interminável para podermos embarcar. No regresso problemas no aeroporto de Honolulu. O voo está “overbooked” e apesar de termos pago as viagens em setembro, dizem-nos que não temos lugar no voo. Há pessoas a mais e cadeiras a menos, dizem. Como?!?!?! E não vêm isso na altura de reservar os voos? E permitem? Sim, pelos vistos há companhias aéreas que permitem tudo e mais alguma coisa. Alternativas? Deixar de fazer um voo direto (Honolulu-Pequim) e fazer um voo com uma escala interminável em Los Angeles. Não, obrigada. Passar mais um dia em Honolulu e seguir no voo seguinte. Não, obrigada. Num hotel longe de tudo, sem piscina, emprego do marido à espera, etc… não, obrigada. Sejam profissionais e honestos e muitas chatices se evitam.
Pelo meio 7 dias de relaxamento, praia, diversão, passeios, descoberta, família. A ilha de O’ahu é absolutamente linda. Verde, azul, divertida, simpática, acolhedora. Espero bem que os seus habitantes tenham noção da sorte que têm em viver num local assim. Saí de lá encantada e com pena por não viver num local saudável e relaxado como aquele. Ter montanhas, mar, ar puro e gente simpática como vizinhos é um luxo hoje em dia. Fez-me recordar os tempos em que vivi no enclave do Oecusse em Timor Leste.
Bem sei que é um destino caro, bem sei que são muitas horas de voos e escalas, bem sei que é “do outro lado do mundo”, bem sei que os hotéis e a restauração cobram preços exorbitantes aos turistas, mas mesmo assim vale a pena. Quem sabe um de vocês segue os meus conselhos. Não se vão arrepender, garanto-vos.
De regresso a Pequim, caí na realidade das montanhas de roupa para lavar e secar, a azáfama com a escola dos filhos, a rotina do dia-a-dia. Mas nem por isso fiquei triste ou deprimida. Aqui é a minha casa agora. Daqui a uns dias começo as minhas aulas de mandarim, regressei para os novos amigos que aqui fiz, tenho os meus filhos comigo e o meu marido também e uma “penetra” que desde há uns dias partilha a casa connosco pois veio para cá trabalhar. É bom para o André ter cá a madrinha consigo. Ela ficou feliz, ele ficou feliz e nós também. E apesar da Catarina ainda lhe trocar o nome, é bom ver que também a gosta de ter por cá. A família cresceu e agora a casa grande está um bocadinho mais preenchida. Já somos 6 tugas (contando com a gata Micas!) na torre 1 da GuangCai Mansion.

E os planos para novas aventuras já estão a fervilhar. As próximas viagens começam a ser planeadas já amanhã!!!


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

快乐中国新年 Feliz Ano Novo Chinês

Agora que as baixas temperaturas já não estão tão insuportáveis e o meu cérebro parece começar a descongelar, vamos lá pôr os assuntos em dia.

Como devem saber, uma vaga de frio invulgar, até mesmo para os padrões de Pequim, tem atingido a capital e, no geral, todo o território chinês. Nem mesmo as províncias mais a sul conseguiram escapar com as temperaturas a atingir valores negativos em Hong Kong e a vizinha Macau. Difícil de acreditar que daqui a meio ano vamos ter temperaturas de 40° à sombra. Assustador!

Por estes dias tivemos nova onda de idas ao hospital para visitar a doutora francesa. Primeiro foi o papá Souto com uma amigdalite e, logo a seguir, o filho Souto resolveu imitá-lo. Resumindo: 3 dias de enfermagem para mim e falhas ao trabalho e à escola. Esperemos que este “bichinho” tenha ido parar a outras bandas e deixe o resto da família em paz.

Sei que alguns de vós viram uma publicação no Facebook de uma aula de mandarim. Aquela não foi “a sério”. Uma espécie de aula-teste ou, como lhe chamam em inglês, uma “trial lesson”. Serve para ficarmos a conhecer a professora, contactarmos com a língua, conhecermos a metodologia e, no meu caso, serviu sobretudo para me assustar com o grau de dificuldade da língua. 5 tons, minha gente! CINCO!! Esta gente usa cinco tons diferentes para uma mesma sílaba e a diferença no tom equivale à diferença no significado. Isto em termos generalistas, claro! Depois daquela primeira aula ganhei juízo e desisti logo ali…só que não! Eu sou mesmo de desafios e dia 23 do próximo mês, após as férias, tenho encontro marcado com o mandarim! MEDO!

Por falar em aulas, algumas (boas) novidades em relação à Catarina e a sua experiência na creche. Depois de umas semanas de algum stress, parece que a miúda está finalmente a integrar-se. O caminho ainda é longo e tortuoso mas já não chora todo o caminho, já come e até já diz que gosta da “mãe da escola” e da escola em si. É bom senti-la mais confiante e participativa.

Entretanto, dentro e fora de portas, as árvores de Natal dão lugar aos enfeites do Ano Novo Chinês. Diz-se adeus ao ano da cabra e as boas-vindas ao ano do macaco. Esta é, muito provavelmente, a maior festividade deste país e faz com que os chineses se desloquem em massa para visitar os seus familiares. O Festival da Primavera, como também é conhecido, começa com a Lua Nova no primeiro dia do novo ano e acaba na Lua Cheia, que ocorre 15 dias depois. Uma vez que o calendário chinês se baseia numa combinação de movimentos solares e lunares, o Ano Novo Chinês calha em datas diferentes todos os anos.

As celebrações do Ano Novo implicam decorar as casas e as ruas, visitar os familiares, fazer oferendas aos membros mais novos da família e aos deuses e fogo-de-artifício…muito fogo-de-artifício. Por estas razões muitos dos estrangeiros que aqui vivem e trabalham há vários anos são da opinião que esta é uma excelente época para sair do país e procurar paragens mais tranquilas. Aproveitando o facto de as escolas pararem as atividades letivas durante duas semanas, vamos seguir o conselho de muitos e vamos passear. Só não revelamos ainda para onde! Seus curiosos...

A verdade é que vem aí uma ótima notícia a caminho e que nada tem a ver com o nosso destino de férias. A novidade está a ser cozinhada há umas semanas mas ainda não estou em condições de a revelar. Lamento ter aguçado novamente a vossa curiosidade mas vão ter que esperar mais uns dias.

Beijos e até ao próximo texto e não se esqueçam de ir acompanhando este blog no Facebook. 




















sábado, 16 de janeiro de 2016

Seis meses!



6 meses de China… 181 dias de “Nǐ hǎo” e “Xièxiè”… um semestre de odores, sabores, cores e experiências diversas e tão enriquecedoras.

Nem acredito que já se passou meio ano e eu quase não conheço a cidade onde moro. Eu sei que já vos disse que a cidade é grande, enorme, gigantesca mas, acreditem, nunca é demais reforçar essa ideia. Pequim é grande em tudo. Edifícios enormes, uma rede de metro de centenas de quilómetros, avenidas com 4 e 5 faixas de rodagem para cada lado, milhões de carros, milhões de pessoas, milhares de pontes…nada do que eu vos diga vos pode preparar para o impacto que é aterrar nesta cidade. 6 meses depois eu não conheço o meu “bairro”, quanto mais a cidade. Pelo meio revisitei alguns locais e descobri outros mas não tantos quanto desejaria.

Pelo meio também fui a Portugal passar o Natal, Ano Novo e Dia de Reis. Visitei amigos, comi, bebi, resolvi alguns assuntos pendentes, comi, bebi, fiz compras, comi, bebi, visitei familiares, comi, bebi… foram 3 semanas bem passadas, bem comidas, bem bebidas e também bem molhadas! São Pedro adora o Porto e eu até já me tinha esquecido que chove tanto na minha cidade do coração. Por cá quase nunca chove e essa característica de Pequim, desculpem lá que vos diga, bate o Porto aos pontos. Foi muito bom rever os meus pais, matar saudades dos seus miminhos e da comidinha caseira, abraçar velhas e boas amizades mas o regresso e as despedidas doem muito e deixam um amargor no coração. Desfazer o nó na garganta levou o seu tempo e nada melhor do que voltar à rotina com toda a força, atirar-me de cabeça às minhas tarefas e pôr em prática alguns projetos idealizados e algumas “resoluções de ano novo”.

Hoje foi dia de enganar o frio e aquecer o corpo e a alma com um tradicional Hot Pot. Este prato típico chinês é uma espécie de sopa, com ou sem picante, cujos ingredientes são escolhidos por nós e podem ser tão variados como: tofu, carne, peixe, legumes, massa, cogumelos, lótus, etc. Nas mesas estão incorporados os “fogões”, depois colocam-se os ingredientes crus que previamente escolhemos e somos nós que os cozinhamos. De vez em quando vem um empregado “ensinar” como se faz. Tudo num ambiente muito animado e em boa companhia. Foi muito agradável e são momentos que vão ficar gravados para sempre na gaveta das memórias da China. Para os mais céticos, venham até cá e provem. Verão que não se arrependem!

Hoje comecei um novo projeto que já há algum tempo vinha sendo “cozinhado” na minha cabeça. Sei que muitos de vós leem os meus textos e até fazem comentários elogiosos e simpáticos mas às vezes sinto que vos falho por demorar tanto a escrever. As responsabilidades do dia-a-dia nem sempre me permitem ser tão assídua quanto gostaria. Decidi portanto criar uma página no Facebook com o mesmo título deste blog. Espero assim poder dar-vos notícias com mais frequência e chegar a um público cada vez mais alargado.

E para terminar por hoje, uma palavra de agradecimento a todos quantos estiveram comigo pessoalmente ou por mensagem durante as férias de Natal. Foram todos eles momentos muito gratificantes e felizes. E, já agora, um pedido de desculpas àqueles com quem não me consegui encontrar. Foram três semanas mas, acreditem, não cheguei para as encomendas! Fica para uma próxima oportunidade, está prometido! ;)


Hot Pot